Wednesday, June 19, 2013

CHANGE BRAZIL II--AN ARTIST'S POINT OF VIEW





This is account of what happened during today's protest in Fortaleza, Brazil. The author is Nathalia Catarina Forte, a young talented  artist and illustrator.

Amigos, cheguei dos protestos nos arredores do Makro e do castelão, estou em casa e bem, mesmo que esteja com o gostinho estranho do gás na boca (desculpe mamãe). Eu nunca havia ido há um protesto antes, e sempre me perguntei da eficácia deles. Sou filha de uma família de classe média que veio da pobreza, nós aprendemos na cartilha de que o silêncio nos mantém seguros. Quando a inquietação dos protestos chegou em mim, eu decidi ir. Há muita gente insatisfeita para ser vazio, e se o fosse, eu poderia pelo menos julgar pelo que vi e pelo que vivi, não pelo que me contaram. E é claro, que tomada a decisão eu tive medo. Medo de levar uma bala; de ser pisoteada; medo de todo tipo de coisa. Mas eu estava com um medo maior: medo da passividade. Então eu fui, acompanhando um amigo fotografo, uma outra fotografa (Manu) que conhecemos lá e infelizmente não sei onde ela foi parar depois da confusão, mais duas meninas, amigas do fotografo. Chegamos por volta das 10 e 30, tudo muito tranquilo, uma festa, uma lindeza de se ver. Cartazes e pessoas criativas, a população na calçada, os motoristas liberando parte das passagens e buzinando junto, fazendo V de vitória, famílias de todas as classes, senhoras e senhores, crianças com seus pais sendo abrigados do sol e recebendo água dos moradores, palavras de ordem, protestos coletivos, individuais, punks, branquinhos de all star, meninos de chinelo.... Fizemos várias fotos belíssimas, conhecemos muitas gentes e suas causas, como por exemplo, a da moça ainda muito jovem com o cartaz que dizia "meu pai morreu esperando atendimento num hospital público e você ainda está pensando em futebol?" as pessoas a fotografavam e depois a abraçavam enquanto ela chorava. (Eu sei que sou sentimentalóide e em alguns momentos é assim mesmo que meu relato vai soar, aceito de ante mão essa crítica, não me nego minha capacidade de me emocionar) Seguimos então a manifestação que caminhou por apenas DOIS QUARTEIRÕES até parar num triplo cerco policial preparado especialmente para ela.
subimos pelas laterais, fotografando e tentando entender o que estava acontecendo até chegar ha mais ou menos 3 pessoas da primeira fila de cabeças de capacete. Lá havia uma rua lateral e acreditamos ser uma boa possível rota de fuga. Ai notamos a tensão instaurada ali. Os manifestantes pediam passagem, a polícia negava, mesmo que a passeata só tenha andado dois quarteirões. Ou seja, a força policial não estava lá para "controlar" os manifestantes, ela estava para PROIBIR A MANIFESTAÇÃO DE ACONTECER. Vimos que havia uma construção, muitos fotografos, incluindo nosso amigo, subiram em um barranco que havia nela para fotografar. Vimos que alguns manifestantes na linha de frente sentavam no chão, e outros entravam no terreno da construção, tentando "fazer o balão"na força policial. A partir daí muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Segundo um colega na linha de frente, a policia anunciou a eles que eles tinham 5 MINUTOS PARA DISPERSAR. E foi quando eles se sentaram. Vi algumas pessoas recolhendo pedras no chão, na eminencia do confronto, subimos a rua lateral, eu tirei a garrafinha de vinagre da mochila. Daí não deu tempo guardar, antes do meio da quadra chegou o gás e a confusão, eu tossia e meus olhos ardiam e lacrimejavam muito, o nariz escorre demais. Fizemos um cordão pela parede, nosso amigo segurou a minha mão e me puxou, eu não conseguia manter os olhos abertos muito tempo, só segurei a mão de uma das meninas e subimos a rua rente ao muro, passando a garrafinha de vinagre de uns pros outros, pros nossos amigos, pra quem pedisse. Gente passando mal, uns sendo carregados pelos amigos e tudo isso só em meio quarteirão. Nos recuperamos no fim da rua, ajudamos algumas pessoas, uns intoxicados com o gás (santo vinagre q não nos deixou vomitar, se for placebo funciona muito bem), uma senhora colocava a mangueira derrubando água pra fora da casa pra aliviar quem pudesse, outros chegavam feridos de bala de borracha, no peito, no rosto, na cabeça, e usamos nosso pequeno e muito modesto kit de assepsia pra ajudar. Quando parecia que estava tudo bem, a passeata começou a avançar ( acredito que aqui houve a sabotagem em questão http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2013/06/19/reporter-do-uol-apanha-da-policia-e-relata-armadilha-contra-manifestantes.htm) e nós tentamos voltar pra via principal, mas novamente vieram os tiros e o gás e com eles MUITAAA revolta. Como é que eu posso dizer há um homem ferido no peito, que diz que o policial olhou pra ele que estava parado com um cartaz e atirou, que pensar em " tem que partir mesmo pra cima desses caras! Se ficar passífico eles vão matar a gente!" está errado? Eu não disse nada. Ouvi muitos reclamarem e incitarem a revanche. Decidimos voltar ao ponto de encontro pra descobrir se a manifestação tomaria outro rumo. Foi quando vimos no fim da rua uma viatura começar a ser apedrejada por rapazes com os rostos cobertos por camisetas. Um grupo pediu "sem violência! sem vandalismo!" e foi apedrejado de volta. Meu amigo tentou fotografar a cena e foi ameaçado " fotografa não que tu vai ficar queimado nas área!". Depois da ameaça, evidentemente saímos, e seguimos pro ponto de encontro, a tempo de ver um rapaz carregar uma das grades de contenção da polícia no ombro, uma espécie de suvenir. ( Uma outra situação a relatar é que antes mesmo do confronto com a polícia, no começo da manifestação, um menininho de uns seis anos veio de bicicleta e jogou uma bomba, tipo rasga-lata, daquelas maiores, nos manifestantes). Quando voltamos ao ponto de encontro, e estavam todos muito dispersos, uma de nossas amigas já apavorada pediu pra ir embora. Procurávamos uma saída quando vimos a fumaça da viatura, e os caras de rosto coberto fugindo correndo. Não sei se eles são infiltrados, acredito mais que sejam criminosos da própria comunidade aproveitando a oportunidade catártica - não tiro a culpa de ninguém, só observo que também são eles frutos da realidade que queremos mudar. Então surgiu o rapaz ensanguentado, camisa canarinho pintada de vermelho, um tiro de borracha na nuca, e do nada uma câmera de uma grande emissora de tv. Ele contou seu caso, exibiu sua relíquia de guerra, muitos se agregaram e gritaram suas palavras de ordem. Ele defendeu mais uma vez que a polícia veio primeiro. Seguimos para a BR, e vimos acontecer o que eu acreditava já devia ter acontecido: os manifestantes que conseguiam se aglomerar, fecharam a BR nos dois sentidos, em dois pontos distintos. No meio, alguns ônibus com adesivos oficiais da FIFA não podiam ir nem vir. do alto do viaduto o grito "DEITA NA BR!!!". As ambulâncias passavam e eram aplaudidas. Nós já não somos tão jovens, meus amigos queriam ir pra casa, postar fotos, se recuperar - do gás, da desidratação, da insolação, do cansaço das horas de pé e da longa caminhada. Eu queria ficar, enquanto o corpo está quente, beleza. Eu queria muito estar ali, testemunhar e fazer parte daquilo. Eu queria fazer isso pra vir aqui, e pra contar a todo mundo o que eu vi e ouvi, e ninguém me contou, EU ESTAVA LÁ E ATESTO TODOS OS FATOS QUE DECLARO. Voltei pra casa, ouvi os sermões preocupados da minha mãe, conferi se alguns colegas estão bem, e estou feliz de ter estado lá. Pretendo voltar as manifestações. Sim, elas são inseguras e tem todo tipo de gente, MAS TODO TIPO DE GENTE TEM NO MUNDO, E MAIS INSEGURA E INCERTA DO QUE NOSSA VIDA É HOJE? Prefiro me arriscar, há viver mais vinte anos com medo, de assalto, de morte, de recessão econômica, de falta de emprego e especialmente, medo da imobilidade, essa coisa terrível que nos impede de viver, a a impunidade, o "você não pode fazer nada, as coisas sempre foram assim. Prefiro ao medo de ver ótimos profissionais, artistas, politicos sérios, educadores de primeira qualidade e de primeira necessidade, batalharem e serem impedidos de viver e trabalhar por um sistema engessado, corrupto, todo errado. De ver pais e mães terem que trabalhar na maior parte do seu tempo, se ausentando da presença parental tão importante na formação da psiquê e do caráter das pessoas, para darem ao filho aquilo que ele devia ter fornecido pelo estado em troca do que já contribuimos todos os dias. Mudar a presidência não é mais uma esperança, é o sistema que está todo falido e tem que ser todo reformado, investigado, transparente, participativo. Se não se muda a massa do bolo, não adianta trocar a cereja. Esse é meu relato, eu estive lá, e estarei outras vezes. Se nada mudar, acho que eu me mudo, vou ser uma exilada politico-economico-social. #fortalezaapavorando #ProtestoCE #vemprarua #OGiganteAcordou

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